OSU!
Buenas pessoal, vamos aproveitar para comemorar as 3500 visitas ao
blog com um artigo especial sobre a herança das artes marciais
chinesas na construção do Karate. Tive a oportunidade de conversar
e treinar com diversas pessoas, hoje valorosos amigos, praticantes
de artes de origem chinesa, o que ajudou a compreender melhor o que
lia nos livros e não fazer uma salada com os termos Wushu,
Kung-Fu, Kenpo, Quan Fa etc. Ainda
abordaremos isto se for importante, mas por enquanto vamos falar da
herança dessa cultura guerreira da China dentro do Karate: os
aspectos internos e externos.
Shorin-Kan
Na China desenvolveram-se duas formas de praticar formas de luta
organizadas. A mais antiga, remete a um jogo sangrento chamado
Go-Ti, criado por um igualmente sangrento ‘senhor da
guerra’ chamado Chi-yu há cerca de 2600 anos.
Militarmente, a origem da organização guerreira para proteção dos
castelos, fortificações, templos e para expansão militar remete às
ações do Imperador de Huan Ti (o famoso Imperador Amarelo, que
reinou entre 140 e 87 a.C.). Neste período foi formada uma classe
guerreira na China que praticava manobras em massa e técnicas de
luta com lanças e bastões. Séculos depois, por volta de 520 d.C.
Surge o monge indiano Ta Mo Lao Tsu, que vindo da China,
estabeleceu-se no Mosteiro Songshan Shaolin, na província
de Wei. Conta a lenda que este monge, então chamado
Bodhidharma, teria introduzido diversos exercícios
respiratórios e corporais (semelhantes à Yoga) além das
tradições do Budismo. Com isto, Bodhidarma (ou Bodai
Daruma, em japonês) foi duplamente importante para as artes
marciais, pois teria fundado não apenas o estilo de luta de
Shaolin como também seria o primeiro patriarca do Zen
Budismo.
Tendo as técnicas de Bodhidharma evoluído para os estilos
externos (ou duros), saindo do Shaolin primordial para
tantos outros como Wing Tsun, Hung Gar e as
versões modernas de Shaolin, também esta escola foi
exportada para Okinawa, onde passou a ser conhecida como
Shorin-kan. Ou seja, Shorin no Karate-Do são as
manifestações da união dos estilos externos do Wushu
Chinês ao Te de Okinawa. Desta fusão procedem as técnicas
predominantes em estilos oriundos do Shuri-Te.
Shorei-Kan
Com o advento da filosofia Taoísta na China, especialmente através
da obra de Lao Tzu, desenvolveu-se uma forma diferente de ver o
mundo. Esta visão baseava-se na compreensão dos aspectos
Yin (suave, feminino, negativo, ondulatório) e
Yang (duro, masculino, positivo, partícula) da energia
C’hi (Ki em japonês) e suas manifestações
na realidade. O objetivo dessas práticas era essencialmente
descobrir o lugar do homem no Universo e a pureza original do ser
humano. A partir do empenho de diversos mestres eremitas que
vagavam pelo ‘país do meio’ desde aproximadamente 300
d.C. divulgando o Tao Te Ching, foram estruturadas e
desenvolvidas as artes suaves da China.
Tendo essas técnicas evoluído para os estilos internos (ou suaves),
desenvolveram-se estilos como Hsing-I, Pakua,
Noi Kun e Taichi Chuan, que exportados para
Okinawa, passaram a ser conhecidos como Shorei-kan. Ou
seja, Shorei no Karate-Do são as manifestações da união
dos estilos internos do Wushu Chinês ao Te de
Okinawa. Desta fusão procedem as técnicas predominantes em estilos
oriundos do Naha-Te.
Em seu livro ‘Karate-Do Nyumon’ o mestre Gichin Funakoshi chama atenção para o fato de que se deve cultivar equilibradamente os aspectos Shorin e Shorei da arte. Será que o fazemos?
OSU!
Tiago Frosi
Referências:
CAMPS, H.; CEREZO, S.
Estudio técnico comparado de los Katas de Karate.
Barcelona: Editorial Alas, 2005.
FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório
do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.
GONELLA, R. Do: Viaggio Attraverso il Karate alla
Ricerca dell’antico To-De. S/L, 2003.
MINICK, Michael. O Pensamento Kung-Fu. São Paulo:
Artenova, 1974.
PARKER, E. Segredos do Karatê Chinês. Rio de
Janeiro, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A.,
1963.
REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o
paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.

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