Home Data de criação : 09/04/24 Última atualização : 09/09/11 06:16 / 17 Artigos publicados
 

Uma Pequena Biografia de Grandes Mestres [UPDATED]  (História) escrito em segunda 25 maio 2009 06:42

OSu!

Ao longo dos seis séculos de desenvolvimento da arte marcial que viríamos a chamar Karate-Do, eminentes figuras fizeram parte de uma história que marcou um pequeno reino de forma especial. A vida destes grandes homens marcou para sempre a história de Okinawa e eles serão sempre lembrados, pois vivem através das lendas e dos relatos que perpassam o Caminho das Mãos Vazias.

Kanga Sakugawa (1733 - 1815)
Nascido em 1733, em Shuri, ainda jovem iniciou em 1750 seus estudos da arte marcial de Okinawa (Te) sobre a tutela de Peichin Takahara (1683-1760) de Akata.
Um Sapposhi fez com que ele conhecesse o expert em arte marcial chinesa conhecido por Kushanku, em 1756. Pelos méritos de seus serviços prestados ao rei de Okinawa, exercendo a função de Juiz de Paz, foi honrado com o título de Satunuku.
Quando Sakugawa tinha 78 anos, o jovem Sokon Matsumura veio de Shuri e pediu para que o instruísse na arte do combate. Com isso a era dos grandes mestres de Tode da escola Shorin-ryu começou. Sakugawa morreu em 7 de julho de 1815.

Sokon Matsumura (1809 - 1899)
Sokon Matsumura nasceu na vila Yamagawa (Yamagawa-cho), em Shuri, descendente de uma nobre família.
Durante sua vida Matsumura trabalhou como conselheiro e guarda costa dos últimos três Reis de Ryukyu (Sho-Ko, Sho Iku e Sho Tai). Esta posição permitiu que ele viajasse pra China e Japão para diversos locais (Fuchou, Satsuma e Fu-chien), onde estudou artes marciais: Kempo (boxe chinês) e Kenjutsu Jigen-ryu (esgrima). Devido a sua grande reputação começa a ficar conhecido como "Bushi" (o guerreiro) e torna-se em sua época o maior artista marcial de Okinawa. Notado pelo seu estudo do físico e também do metafísico, enfatizava a importância de balancear o desenvolvimento físico com a educação moral. Estudou a fundo o Confucionismo e era mestre da fina arte da caligrafia.

Anko Azato (1828 - 1914)
Azato sensei Foi um dos maiores especialistas de Tode e membro de uma família das mais respeitadas, além disso primava na Arte da Equitação, Esgrima e do manejo do Arco. Funakoshi conta sobre um conselho de seu mestre, Azato: “se o adversário não o assustar, se permanecer calmo e se procurar a brecha inevitável na defesa (...), a vitória não é tão difícil”. Mestre Azato era um tonochi (senhor de pequeno feudo).

Kosaku Matsumora (1829 - 1898)
Kosaku Matsumora foi um grande mestre do Tomari-Te, tendo estudado com Karyu Uku e Kishin Teruya. Algumas fontes apontam que é possível que tenha estudado com Sokon Matsumura, além de aprendido o estilo de esgrima japonesa Jigen-ryu. É apontado como instrutor de Choki Motobu em Tomari-Te e que sua grande vocação pelas ações promotoras da justiça ter-lhe-iam conferido o apelido ‘Primeiro Santo’.

Anko Itosu (1831 - 1915)
Itosu é considerado um dos grandes precursores dos estilos modernos. Ele foi uma espécie de figura paterna para os seus alunos, enquanto que, fisicamente, possuía um peito largo como um barril, barba e uma grande força interior.
Itosu era imensamente cauteloso, reservado e mantinha em seu dojo muita disciplina. Dentre seus amigos, Anko Azato (um mestre de Te e brilhante espadachim) achava que as mãos e os pés deviam ser como lâminas e que o contato com o oponente devia ser evitado a qualquer custo. Itosu, no entanto, achava que o corpo não precisava ser tão móvel, mas capaz de absorver os mais duros golpes.
Anko Itosu faleceu aos 84 anos, mas deixou para trás uma impressionante lista de discípulos que, a seu tempo, realizaram o seu sonho. Dentre os nomes mais famosos estão: Kentsu Yabu (1866 - 1937); Gichin Funakoshi (1868 - 1957); Chomo Hanashiro (1869 - 1945); Choshin Chibana (1885 - 1969); Kenwa Mabuni (1889 - 1952).

Seisho Aragaki (1840 - 1918)
Aragaki sensei era conhecido como o ‘velho homem’ em Okinawa. Grande conhecedor de Tode e Kobudo recebeu do governo de Okinawa o título de Chikudun Peichin, equivalente ao samurai no Japão.
É considerado o introdutor dos kata Sochin, Niseishi e Unshu. Por ser um mestre muito reconhecido, conta-se que deu lições a Kanryo HIgaonna, Gichin Funakoshi, Kenwa Mabuni e Tsuyoshi Chitose.

Kanryo Higaonna (1853 - 1915)
Kanryo Higaonna, criador do Naha-te, enriqueceu bastante o Te com o que aprendeu diretamente na China. Foi mestre de Chojun Miyagi e Kenwa Mabuni. Primeiro em Okinawa, com chineses residentes na cidade de Kume, e depois, a partir de 1874, no próprio território chinês, onde permaneceu cerca de 15 anos estudando sob a orientação de Liu Liu Ko, Higaonna aprendeu os movimentos de combate curtos e fortes típicos do Sul da China. Regressado à Okinawa após uma demonstração privada perante o Rei Sho Tei, começa a ensinar a sua arte que designa por Naha-Te. Higaonna foi um homem extremamente humilde, que recusava qualquer pagamento por suas lições de Karate, no máximo que seus alunos o presenteassem com algo simples em datas especiais. Em 1915 morreu deixando como sucessor direto Chojun Miyagi.

Kanbun Uechi (1877 - 1948)
Uechi sensei foi o fundador do Uechi-ryu, estilo originado de uma arte chinesa e que chamara Pangainun-ryu. Cresceu no vilarejo de Izumu, em Motobu, Okinawa. Com a invasão japonesa de no final do século XIX, Kanbun fugiu para a China em 1897. Na província de Fu-chien entrou em contato com as artes locais que contribuíram para o desenvolvimento de seu estilo. Ao voltar para Okinawa, já em 1910, acabou se mudando para Wakayama, onde anos depois  seu filho Kanei mudaria o nome de seu estilo para Uechi-ryu. Kanei foi o responsável pela grande difusão do Uechi-ryu.

Semana que vêm: Histórias da difusão do Karate pelo mundo

OSu!

Tiago Frosi

*Agradecimentos ao sensei Denis Andreatta pela revisão.

Referências (para todos os artigos sobre a História das origens do Karate-Do)

AUGUSTO, Jordan. Koryu e Gendai Budo: Reflexão. Portal da Sociedade Brasileira de Bugei. Disponível em: < http://www.bugei.com.br/ensaios/>. Acesso em: 15 mai. 2009,

CAMPS, Hermenegildo; CEREZO, Santiago. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

CBK, Confederação Brasileira de Karate. História do Karate. Portal da Confederação Brasileira de Karate. Disponível em: <www.karatedobrasil.org.br>. Acesso em: 13 mai. 2009.

CHAMBERS, Jason; DUFF, Bill. Human Weapon: Karate. History Channel. AETN, 2008.1 DVD-Rom.

FUNAKOSHI, Gichin. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

FUNAKOSHI, Gichin. Karatê-Do: Meu Modo de Vida. São Paulo: Cultrix, 2000.

GONELLA, Roberto. Do: Viaggio Attraverso il Karate alla Ricerca dell’antico To-De. S/L, 2003.

LOWE, Bobby. Mas Oyama’s Karate: Cómo se enseña em El Japón. Buenos Aires: Editorial Glem S.A., 1967.

NAKAYAMA, Masatoshi. O Melhor do Karatê: Visão Abrangente e Técnicas. São Paulo: Cultrix, 2000. V. 1, 11 v.

NAKAZATO, Jyoen; OSHIRO, Nobuko; MIYAGI, Tokomusa; TUHA, Kiyoshi; KOHAGURA, Yoshinobu; HIGAONNA, Morio; TAIRA, Yoshitaka; SAKUMOTO, Tsuguo. Karatê de Okinawa e Artes marciais com Armas. Disponível em: <www.wonder-okinawa.jp/023/eng>. Acesso em: 20 jun. 2005.

RATTI, Oscar; WESTBROOK, Adele. Segredos dos Samurais: As Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.

REID, Howard; CROUCHER, Michael. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.

ROSS, Tom. Choki Motobu: through the myth...to the man. Portal Fighting Arts. Disponível em: <http://www.fightingarts.com/>. Acesso em: 15 mai. 2009,

RYUSAKU, Tsumoda; BERRY, W.M. Theodore, KEENE, Donald. Sources of Japanese Tradition. Columbia University Press. Nova Iorque, 1964.

STEVENS, John. Três Mestres do Budô: Kano, Funakoshi, Ueshiba. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

STEVENS, John (Org.). Segredos do Budô. São Paulo: Cultrix, 2001.

TAZAWA, Yutaka. História Cultural do Japão: Uma Perspectiva. São Paulo: Ministério dos Negócios Estrangeiros, 1980.

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O Embu que conquistou um Império  (História) escrito em sábado 16 maio 2009 05:00

OSu!

Caros leitores, estamos chegando ao final desta fase em nossa pesquisa, onde abordamos os aspectos histórico-culturais acerca das origens do Karate-Do. Neste penúltimo post apresento algumas informações interessantes sobre a introdução do Tode no Japão Continental e a atuação dos mestres okinawanos responsáveis por este processo. Semana que vem encerramos o tema e provavelmente estarei lançando um post especial com mini-biografias dos grandes mestres relacionados nos textos do Karate Science. A partir da semana final do mês de maio iniciamos a próxima fase de nosso estudo: a difusão mundial do Karate, onde os grandes problemas que nos afetam até hoje parecem ter se iniciado.

Boa leitura a todos, já agradecendo pela fiel audiência semanal que está rendendo a repercussão positiva entre os karatekas do Brasil, sejam estes do estilo que forem, todos que contribuíram com seus comentários vem mostrando como uma unidade dentro do Caminho que escolhemos é possível.

É abundante na literatura a descrição do episódio que levou o Tode pela primeira vez ao Japão, por isso procurarei me ater aos detalhes menos conhecidos. Em 1921, numa viagem do Príncipe Hirohito, a comitiva imperial acabou fazendo uma breve parada em Okinawa. Para receber o futuro Imperador, os uchinanchu (okinawanos) preparam uma grande recepção, onde, entre as atividades, estava prevista uma apresentação de Tode. Neste episódio, Gichin Funakoshi estava presente com seus alunos da escola municipal, deslumbrando o jovem príncipe com uma demonstração de Embu (luta combinada entre dois ou mais karatekas, uma espécie de coreografia).

As ótimas impressões causadas pela apresentação renderam aos okinawanos um convite para demonstrar o Tode no Japão continental, na ‘I Exibição Atlética Nacional’, evento promovido pelo Ministério da Educação do país. Naquela oportunidade, Funakoshi e seu grupo foram à Tóquio realizar uma nova demonstração para diversas autoridades do país e para o grande público.

Curioso, no episódio, foram os uniformes: hachimaki e camisetas (sim! T-shirts ocidentais!) brancas (apenas Funakoshi usou um uwagi branco), hakama pretos compridos até metade das pernas (que no período feudal designava os guerreiros de classe mediana) e longos bo.

Daí em diante Funakoshi não conseguiu mais retornar à Okinawa, sendo diversas vezes persuadido por vários grupos a permanecer no Japão ensinando Karate. Até no Instituto Kodokan, fundado por Jigoro Kano, Funakoshi-sensei permaneceu ensinando a pedido deste. Publicou ainda em 1922 seu primeiro livro: ‘Ryukyu Kempo: Karate’. Promoveu assim a mudança dos ideogramas que formavam a palavra Karate (em japonês, a pronúncia dos ideogramas para Tode também pode ser lida Karate), que significavam ‘Mão chinesa’, para Karate significando ‘Mãos vazias’. Buscava assim uma desvinculação ao país rival militar do Japão e se aproximando, assim, do Império nipônico.

Alguns anos depois, um fato acabaria estremecendo as relações entre dois grandes mestres do período: Gichin Funakoshi e Choki Motobu. Muitas lendas surgiram em torno de um episódio, onde Motobu teria derrotado um lutador russo que estava a desafiar e vencer diversos peritos em JuJutsu e outras artes japonesas em Tóquio. O que se sabe é que Motobu, já estabelecido no Japão Continental, aproveitando a onda de popularidade do Karate iniciada por Funakoshi e a falta de instrutores de Karate que suprissem essa demanda, estava em Tóquiio e acabou derrotando o lutador que, entre outras coisas, demonstrava técnicas do Sambo (uma luta de origem russa semelhante à luta livre), entortava barras de ferro no pescoço, etc. O acontecido conferiu grande fama à Motobu que passou a atrair muitos alunos.

O problema se deu quando a King Magazine publicou imagens de Funakoshi, e não Motobu, derrotando o russo. Choki suspeitou que Funakoshi fosse o mentor da alteração e teve grandes atritos com o fundador do Shotokan. De fato, em um de seus livros (Karate-Do Kyohan), Funakoshi afirma que em solo japonês só reconhecia outros dois estilos de Karate: o Goju-ryu de sensei Miyagi e o Shito-ryu de sensei Mabuni. No fim, era uma clara repulsa ao grupo de Motobu.

A partir daí diversos mestres okinawanos vieram ao Japão continental ensinar a arte e uma explosão do Karate aconteceu no país. Passados cerca de 20 anos da primeira exibição atlética onde o Karate surge para os nipônicos, se iniciava um processo de ‘modernização’ que buscaria aproximá-lo de práticas como o Judô e o Kendô, que já possuíam sistemas competitivos e eram amplamente praticadas em escolas em todo país. Apesar disso, o Karate sofreria um forte abalo, junto com tantas outras estruturas do Japão, devido aos acontecimentos da 2ª Guerra Mundial que assolaram todo o país.

Semana que vem: Uma pequena história de grandes pioneiros!

OSu!

Tiago Frosi

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Ancinhos, remos e arreios! Post Especial de 1000 Visitantes!!!  (História) escrito em quinta 14 maio 2009 00:28

OSu!

Para comemorar as primeiras 1000 visitas ao Karate Science, estamos publicando este post especial sobre as origens do Kobudo de Okinawa. Como já foi dito, o Kobudo se originou na mesma época que o Te, quando os agricultores dos Ryukyu utilizaram as ferramentas rurais que possuíam para lutar. Ou seja, ‘a caça à espada’ promovida pelo rei Sho Shin (1477-1526) e a ‘política de banimento de armas’ outorgada pelo clã Satsuma, são apontadas como principais incentivos ao desenvolvimento destas formas de defesa pessoal que não utilizavam as armas tradicionais (katana, naginata, kusari, yari, kyu, etc)

Devido à destruição de muitos documentos e vestígios arqueológicos durante os bombardeios da 2ª Guerra Mundial (ocasião em que Okinawa foi cenário de batalhas extremametne violentas), torna-se difícil falar sobre a história do Kobudo. O que podemos afirmar é que não há duvidas de que a maioria das armas (pelo menos as ditas mais ‘clássicas’) se originam de ferramentas rurais usadas pelos camponeses (heimin). Entre estas armas estavam os ancinhos usados para amontoar folhas e plantas (sai), as varas com que se carregavam vasilhames (bo, jo), as manivelas de moinho (tonfa), os batedores de separação de grãos (nunchaku) –ferramenta que ilustra uma cena no memorável filme ‘7 Samurai’, de Akira Kurosawa–, a linha de pesca com peso de metal na extremidade (surujin), o remo (eku), as lanças de pesca (nunti), os arreios de cavalo (muge nunchaku), as foices (kama) e os arpões usados em parceria com escudos toscos (timpei e rochin), geralmente feitos a partir de cascos de grandes tartarugas.

Os indícios históricos, porém, vêm apontando os Peichin como os praticantes e estudantes do Kobudo de Okinawa que realmente desenvolveram a arte. Isto é observado por que há muitas armas de origem chinesa semelhantes às do Kobudo, criadas antes da adaptação Okinawana. Por outro lado, o famosos livro Okinawano Omorososhi, mostra que as armas citadas acima já eram conhecidas em Okinawa e foram usadas na guerra de unificação os três reinos (Sanzan). Portanto, as evidências indicam que o mesmo processo de apropriação pelos Peichin, e desenvolvimento, a partir do contato com artes de origem chinesa, tal como ocorreu com o Tode, foi o processo ocorrido com o Kobudo.

No início do século XX, um grupo de mestres formado por Moden Yabiku (1878-1941), Shinko Matayoshi (1888-1947) e Taira Shinken (1897- 1970), liderou um movimento para promoção do Kobudo de Okinawa, proliferando as associações e iniciando as pesquisas que deveriam estabelecer os pressupostos de uma metodologia de ensino da arte. Após a segunda Guerra, o Kobudo sobreviveu graças ao trabalho dos mestres Taira Shinken e Kenwa Mabuni. Neste período também, Taira Shinken e Motokatsu Inoue conseguiram finalizar o desenvolvimento das práticas para ensino sistematizado do Kobudo. Outros mestres dignos de lembrança e que tiveram nomes adotados em kata de Kobudo foram: Chotoku Kyan, Shigeru Nakamura e Shinko Matayoshi.

Atualmente, campeonatos mundiais de Kobudo são realizados, tendo acontecido por vezes em Okinawa, o berço desta bela arte. No Brasil, um dos maiores difusores do Kobudo foi o mestre Yoshihide Shinzato, falecido recentemente, mas que muita saudade deixou pela sua grande obra em nosso país.

OSu!

Tiago Frosi


Referências:
CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

CBK, Confederação Brasileira de Karate. Biografia de Yoshihide Shinzato. Revista Digital Karate-Do On-line. Disponível em: <www.karateonline.com.br>. Acesso em: 08 fev. 2007.

RATTI, O.; WESTBROOK, A. Segredos dos Samurais: As Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.

NAKAZATO, Jyoen; OSHIRO, Nobuko; MIYAGI, Tokomusa; TUHA, Kiyoshi; KOHAGURA, Yoshinobu; HIGAONNA, Morio; TAIRA, Yoshitaka; SAKUMOTO, Tsuguo. Karatê de Okinawa e Artes marciais com Armas. Disponível em: <www.wonder-okinawa.jp/023/eng>. Acesso em: 20 jun. 2005.

SHINZATO, Yoshihide; BUENO, Fábio Amador. Kobu-Do: as armas antigas de Okinawa. São Paulo: Editora On-line, 2007.

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Ishi-Soden e o Karate nas Escolas  (História) escrito em sexta 08 maio 2009 04:17

OSu!

Prosseguimos em nossa caminhada para clarear diversas idéias sobre a origem histórica do Karate-Do. Esta semana falaremos um pouco sobre as mudanças que ocorreram na forma como a arte de defesa pessoal de Okinawa foi se transformando e acabou inserida nas escolas como conteúdo para Educação Física.

Dentro da classe guerreira okinawana, os Peichin, havia uma regra peculiar: passar os conhecimentos do Tode da família secretamente apenas para o primogênito. Esse costume, ou regra, era chamado Ishi-soden, e é a ele que Gichin Funakoshi e outros autores se referem quando falam sobre a passagem das técnicas do Karate primitivo de forma secreta. Alguns Peichin como Sanga Sakugawa e Sokon Matsumura estudaram artes marciais na China e as trouxeram para unir estes conhecimentos ao Te e assim formular o Tode. Não terão eles criado esta regra de transmissão individual? Se pensarmos que as verdadeiras gangues de ‘boxers’ nas quais muitas escolas de Wushu eram transformadas, não é de se admirar que o Ishi-soden tenha sido uma medida preventiva para que isso não acontecesse nos Ryukyu.

Praticava-se então, durante os dois séculos seguintes, três linhas de Tode, nominadas de acordo com a localidade onde foram originadas. Eram as linhas Shuri-Te (Mão de Shuri), Naha-Te (Mão de Naha) e Tomari-Te (Mão de Tomari), que enfatizavam explosão muscular, respiração e ritmo dos movimentos respectivamente.

A partir da restauração Meiji (1868), e das diversas transformações sociais que ocorreram no período (principalmente o abandono dos costumes oriundos do período feudal controlado pelo Xogunato), o Ishi-soden foi abolido e passou a haver menos controle sobre a prática do Tode. Este podia então ser ensinado não a um, mas a um número reduzido de alunos. Surgiu nesta época o costume de se ‘entregar’ a criação (ou pelo menos o treinamento em Tode) do filho para um amigo da família.

Neste período, um dos mais eminentes mestres da arte de Okinawa, passou a trabalhar em uma forma de levar a prática do Karate ao público geral, tornando-o a disciplina a ser usada como Educação Física nas escolas. Para isto, Anko Itosu (ou Yasatsune Itosu em algumas traduções) formulou os ’Dez artigos sobre o Tode’, que bem aceitos pelos dirigentes do sistema educacional da época possibilitaram a inserção do Karate nas escolas da Prefeitura de Okinawa. Sabe-se que o próprio mestre Gichin Funakoshi aproveitou a oportunidade, já que fora educado nos clássicos chineses (Daikyo, Chukyo e Shokyo) e outras obras importantes da época por seus avós (também professores de literatura e caligrafia) para tornar-se professor. Muitos pontos interessantes relacionados a este fato, como a resistência de seu pai, que Funakoshi descreve como um descendente de samurai (no caso, talvez de Peichin) e o fato de Funakoshi ter recusado-se a ingressar na Faculdade de Medicina de uma das principais universidades japonesas para não ser obrigado a cortar o birote (nó de cabelo samurai que usava e fora proibido pela Restauração Meiji). Podemos ver como diversas mudanças sócio-culturais naquela sociedade influenciaram a vida e os costumes das pessoas, através do relato do mestre em seus livros ‘Karate-Do Nyumon’ e ‘Karate-Do: Meu Modo de Vida’. Outros grandes mestres da época, como Jigoro Kano (o fundador do Judô), também escolheram por tornarem-se professores, o que era ‘o grande lance’ pois o novo regime (Meiji) transformara esta profissão numa das mais respeitadas e rentáveis do início do século XX.

Da mesma forma que no Japão continental se usava o jargão “a educação que antes era direito único dos samurai agora será para todos membros do povo” para conquistar o apoio popular, em Okinawa se procedia de forma semelhante. O fim do Ishi-soden e a introdução do Tode nas escolas municipais foi uma forma de ganhar o povo pelo fim do ‘segredo dos Peichin’ e ganhar as autoridades pela possibilidade de promover uma educação guerreira desde a infância (a idéia principal da carta de Itosu -os 10 artigos sobre Tode- aos dirigentes do sistema educacional). Foi uma medida diretamente ligada a uma cultura de fortalecimento militar do Japão (do qual Okinawa já fazia parte totalmente) que se preparava para um embate com a Rússia.

Por fim, esta abertura cultural e o próprio desenvolvimento do Karate tomariam um caminho sem volta em direção a expansão para o Japão continental e para o Mundo. A partir da década de 1920, diversos mestres de Okinawa iriam para o Japão a fim de disseminar a arte que vinha sendo cultivada há séculos pelos Peichin. Era o cenário para a transição das ‘Mãos Chinesas’ para o ‘Caminho das Mãos Vazias’.

Semana que vem: Sambo, O Imperador e o Karateka

OSu!

Tiago Frosi

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Sapposhi, Peichin e o misterioso Tode  (História) escrito em sábado 02 maio 2009 03:26

OSSu!

Prosseguimos esta semana com a série de posts onde falaremos sobre a origem histórica do Karate-Do. Continuamos na nossa trilha para, como bem mencionou o professor Rogério no comment semana passada, entender a real relação da arte de Okinawa com o Te, sem contundi-lo com as artes da China. Continuaremos utilizando na grafia dos termos o mesmo padrão apresentado pela prefeitura de Okinawa que pode ser conferido no link à esquerda ‘Wonder Okinawa’ aliado às regras de formatação da ABNT.

Desde 1404 d.C., os Ryukyu recebiam visitas ‘diplomáticas’ de representantes chineses (pois como já citamos o reino do qual Okinawa fazia parte era vassalo deste país). Estas visitas eram chamadas Sapposhi e, comumente, seus integrantes eram militares do ‘país do meio’ que vinham supervisionar as relações entre Ryukyu e a China. Passados 25 anos deste primeiro encontro, Shohashi unificaria os reinos dos Ryukyu, estabelecendo, entre outras coisas, a periodicidade destes Sapposhi.

Sabe-se que estes eventos eram momentos importantes para trocas culturais com os representantes chineses e que, no Sapposhi de 1756 d.C. (o 19º, sob liderança do embaixador Zenkai), foram realizadas demonstrações dos especialistas Kusanku (Kung Sian Chung), Peichin Sakugawa e Chatan Yara, introduzindo respectivamente as técnicas dos sistemas chamados então: Kusanku-zaiko, Tode Sakugawa e Chatan Yara no Kenpo.

Porém, o que ocorria era que, nesta época, alguns Peichin como Sanga Sakugawa já haviam se apropriado das técnicas de luta locais, o Te de Okinawa. Depois de passar maus bocados para conter os heimin revoltosos desde o século XV, os guerreiros okinawanos passaram a estudar a luta de mãos nuas nativa, chegando a criar um sistema de graduação de 6 hachimaki (faixas de testa) coloridos, a exemplo das faixas que usamos hoje na cintura para graduações de kyu.

A influência crucial das artes chinesas nas técnicas locais pode ser constatada através dos manuscritos chamados Bubishi. Este ‘Tratado de Preparação Guerreira’, foi sendo copiado manualmente por gerações, até ser formalmente documentado nas ‘Notas de Oshima’ por Ryosho Tobe. Neste documento, além do Bubishi, Tobe transcreveu o Kusanku (tratado sobre as técnicas do militar chinês Kung Siang Chun) e o Kumiaijutsu. Na parte que competia ao Kusanku, Tobe apresenta as técnicas que deram origem aos kata que conhecemos hoje por Kushanku, Kosokun ou Kanku. No trecho que apresenta o Bubishi, podemos ver as chamadas 48 técnicas de Quan, onde dois guerreiros com vestimentas chinesas combatem (aliás, com admirável semelhança à representação artística do famoso quadro sobre os monges do Templo Shaolin, até hoje conservado na China).

As incríveis histórias envolvendo diversos guerreiros de Okinawa praticantes do Tode, tais como Sokon Matsumura, Kishin Teruya, Kosaku Matsumora, Anko Itosu e Kanryo Higaonna fizeram com que a arte fosse chamada por nomes como Shimpi Tode (Misteriosa Mão Chinesa) ou Reimyo Tode (Miraculosa Mão Chinesa). Aqueles feitos inconcebíveis, como a capacidade de receber inúmeros golpes sem sofrer danos, paralisar adversários com o kiai (técnica de brandido vocal para condução da energia vital, ou ki), romper troncos de árvores com golpes ou esmagar grossos talos de bambu com as mãos nuas, podem hoje ser compreendidos e cultivados através das explicações sobre o funcionamento das energias do nosso ‘corpo vital’ (quem quiser se aprofundar neste tópico pode começar leituras pelos trabalhos relacionados à física quântica, consciência e saúde dos autores Deepak Chopra, Frijtot Capra e Amit Goswami).

Estamos chegando então, aos tempos do Tode moderno, o século XIX, onde já iniciavam em Okinawa os treinos dos mestres mais conhecidos por levar a arte ao Japão Continental. Acabava assim, a cultura do Isshi-soden (a passagem das técnicas de defesa pessoal apenas entre parentes) e iniciava a prática do Karate nas escolas de Okinawa.

No próximo post: ‘Hoje na Educação Física praticamos Karate!’

OSSu!


Tiago Frosi

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