OSSu!
Começo essa semana a série de tópicos que vai discutir a origem do Karate-Do e de suas técnicas. Esqueçam aquele papo de imitar animais, de indianos que ensinaram shaolin que ensinaram algum pirata que se escondeu em Okinawa que deu o nome de Karate, esqueçam o papo de que karate saiu do Jiu-Jitsu (que aliás também não existe e é um aportuguesamento bizarro para JuJutsu). Ou essas histórias foram contadas de má fé ou foram híbridos de historinhas da TV que nada tem a ver com as reais origens do Karate-Do. Agradeço também ao Sensei Denis Andreatta que contribuiu com vários detalhes para enriquecer este artigo.
O Karate-Do tem sua origem de um extenso processo multicultural, isto é evidenciado pela confusão de identidades que o mesmo vem adotando ao longo de sua própria história e a falta de reconhecimento deste como arte marcial nacional pelos japoneses até hoje. Como diversos pequenos reinos do período, os Ryukyu (o arquipélago ao sul do Japão e a leste da China, da qual Okinawa era a Ilha principal) eram um estado vassalo ao Império Chinês, no século XIV.
Nesta época, o reino adotava um sistema de castas sociais muito semelhantes ao dos grandes países da região (China, Índia e Japão) e excluía a vida entre os nobres, o clero, os militares, comerciantes e os camponeses. Os heimin (termo japonês para camponeses) dos Ryukyus viviam numa situação nada agradável, pois, a exemplo do que acontecia em muitos feudos nipônicos, acabavam por pagar com quase todo o produto da colheita, os ‘tributos reais’ que eram exigidos pela aristocracia.
Pior do que não ter o que comer, eles tinham um problema social a suportar que era, provavelmente, pior que a fome: a truculência impiedosa dos Peichin (os membros da casta guerreira, militares semelhantes aos samurai japoneses). Estes guerreiros tinham, entre outras funções, cobrar os tributos (geralmente uma gorda parcela do arroz produzido pelos camponeses). Como não se podia impedir o efeito das intempéries, por vez ou outra os heimin acabavam por perder toda ou boa parte da colheita, detalhe que não interessava aos Peichin. Muitos foram os camponeses que partiram para o trabalho na lavoura e após um dia estafante de trabalho árduo retornaram apenas para encontrar suas casas incendiadas e suas famílias mutiladas e empaladas sob o poente das ilhas do Ryukyu, o castigo governamental pela inadimplência. Esta situação acabou estimulando os agricultores a bolarem formas de se exercitar e se preparar para os embates com os Peichin.
Como o porte de armas pela população comum seria proibido pelos reis da Dinastia Sho (1477), os heimin passaram a sistematizar dois sistemas de defesa pessoal que, em verdade, eram treinados juntos. A estes sistemas chamaram genericamente de Te (ou Ti em algumas traduções), e eram formas muito rudimentares do que viríamos a conhecer por Karate-Do e Kobu-Do de Okinawa. Empregaram contra os Peichin, técnicas toscas de agarramento, empurrões, batidas de ombro, punho e pé, além de uso de ferramentas rurais como os batedores de arroz, varas, enxadas, foices, linhas de pesca, manivelas de moinho, ancinhos e outros, para se proteger das espadas, correntes e lanças dos guerreiros do Rei. Outro fator apontado para uma nova onda de desenvolvimento do Te foi um segundo decreto de proibição do porte de armas pelos ocupantes japoneses de Okinawa em 1609, o clã samurai Satsuma de Kyushu.
A partir do século XVI, houve a
apropriação do Te pelos guereiros de Okinawa, que passaram
a realizar vários intercâmbios com marinheiros e militares chineses
com quem viriam a aprender o Quan Fa (Boxe Chinês, ou
Wushu, ou, como é erroneamente tratado, Kung Fu)
e passariam a desenvolver a arte que chamariam de Tode
(Mãos Chinesas). O arquipélago era então uma região privilegiada
pela localização, pois servia de rota comercial/marítima para as
embarcações chinesas que queriam comercializar com o Japão e
vice-versa.
Semana que vem: os Peichin e o misterioso Tode.
OSSu!
Tiago Frosi


Comentários