Home Data de criação : 09/04/24 Última atualização : 09/09/11 06:16 / 17 Artigos publicados
 

História

[ESPECIAL] Shorin e Shorei - a herança chinesa  (História) escrito em terça 18 agosto 2009 04:10

OSU!

Buenas pessoal, vamos aproveitar para comemorar as 3500 visitas ao blog com um artigo especial sobre a herança das artes marciais chinesas na construção do Karate. Tive a oportunidade de conversar e treinar com diversas pessoas, hoje valorosos amigos, praticantes de artes de origem chinesa, o que ajudou a compreender melhor o que lia nos livros e não fazer uma salada com os termos Wushu, Kung-FuKenpo, Quan Fa etc. Ainda abordaremos isto se for importante, mas por enquanto vamos falar da herança dessa cultura guerreira da China dentro do Karate: os aspectos internos e externos.


Shorin-Kan

Na China desenvolveram-se duas formas de praticar formas de luta organizadas. A mais antiga, remete a um jogo sangrento chamado Go-Ti, criado por um igualmente sangrento ‘senhor da guerra’ chamado Chi-yu há cerca de 2600 anos. Militarmente, a origem da organização guerreira para proteção dos castelos, fortificações, templos e para expansão militar remete às ações do Imperador de Huan Ti (o famoso Imperador Amarelo, que reinou entre 140 e 87 a.C.). Neste período foi formada uma classe guerreira na China que praticava manobras em massa e técnicas de luta com lanças e bastões. Séculos depois, por volta de 520 d.C. Surge o monge indiano Ta Mo Lao Tsu, que vindo da China, estabeleceu-se no Mosteiro Songshan Shaolin, na província de Wei. Conta a lenda que este monge, então chamado Bodhidharma, teria introduzido diversos exercícios respiratórios e corporais (semelhantes à Yoga) além das tradições do Budismo. Com isto, Bodhidarma (ou Bodai Daruma, em japonês) foi duplamente importante para as artes marciais, pois teria fundado não apenas o estilo de luta de Shaolin como também seria o primeiro patriarca do Zen Budismo.
Tendo as técnicas de Bodhidharma evoluído para os estilos externos (ou duros), saindo do Shaolin primordial para tantos outros como Wing Tsun, Hung Gar e as versões modernas de Shaolin, também esta escola foi exportada para Okinawa, onde passou a ser conhecida como Shorin-kan. Ou seja, Shorin no Karate-Do são as manifestações da união dos estilos externos do Wushu Chinês ao Te de Okinawa. Desta fusão procedem as técnicas predominantes em estilos oriundos do Shuri-Te.


Shorei-Kan

Com o advento da filosofia Taoísta na China, especialmente através da obra de Lao Tzu, desenvolveu-se uma forma diferente de ver o mundo. Esta visão baseava-se na compreensão dos aspectos Yin (suave, feminino, negativo, ondulatório) e Yang (duro, masculino, positivo, partícula) da energia C’hi (Ki em japonês) e suas manifestações na realidade. O objetivo dessas práticas era essencialmente descobrir o lugar do homem no Universo e a pureza original do ser humano. A partir do empenho de diversos mestres eremitas que vagavam pelo ‘país do meio’ desde aproximadamente 300 d.C. divulgando o Tao Te Ching, foram estruturadas e desenvolvidas as artes suaves da China.
Tendo essas técnicas evoluído para os estilos internos (ou suaves), desenvolveram-se estilos como Hsing-I, Pakua, Noi Kun e Taichi Chuan, que exportados para Okinawa, passaram a ser conhecidos como Shorei-kan. Ou seja, Shorei no Karate-Do são as manifestações da união dos estilos internos do Wushu Chinês ao Te de Okinawa. Desta fusão procedem as técnicas predominantes em estilos oriundos do Naha-Te.

Em seu livro ‘Karate-Do Nyumon’ o mestre Gichin Funakoshi chama atenção para o fato de que se deve cultivar equilibradamente os aspectos Shorin e Shorei da arte. Será que o fazemos?

OSU!

Tiago Frosi

Referências:

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

GONELLA, R. Do: Viaggio Attraverso il Karate alla Ricerca dell’antico To-De. S/L, 2003.

MINICK, Michael. O Pensamento Kung-Fu. São Paulo: Artenova, 1974.

PARKER, E. Segredos do Karatê Chinês. Rio de Janeiro, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A., 1963.

REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.

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[ESPECIAL] Uma Pequena Biografia de Grandes Mestres [parte3]  (História) escrito em domingo 05 julho 2009 15:38

OSU!!!

Chegamos aos 2500 visitantes no nosso blog, e para comemorar trago este post especial sobre aqueles que foram figuras importantes do Karate desde o início o século XX. Devido à correria de final de semestre os posts estãoatrasando, mas a patir da metade do mês normalizamos os trabalhos por aqui. Boa leitura!

Hironori Otsuka (1892 - 1982)
Aluno de mestrre Gichin Funakoshi, e praticante de Jujutsu, Hironori Otsuka uniu seus conhecimentos de artes marciais para fundar o estilo Wado-ryu. Depois de estudar por muitos anos sob tutela de Funakoshi, Otsuka sensei decidiu separar-se da organização e fundar a sua própria escola. A influência das técnicas de Funakoshi sensei, que podem ser conferidas na obra ‘Karate-do Kyohan’, se mostram ainda muito presentes no Wado, talvez mais do que no moderno Shotokan. O estilo de Otsuka sensei valorizava principalmente as esquivas, o que é considerado uma característica das principais do estilo. Hironori Otsuka abandonou a carreira de médico para dedicar-se ao Karate-Do em tempo integral, fato possibilitado pela realidade do Japão da Era Meiji.

Gigo Funakoshi (1906 - 1945)
Filho de Gichin Funakoshi, foi o responsável por profundas transformações do Shotokan. Era o braço direito do pai, e introduziu conceitos novos, descendo o centro de gravidade das bases para uma posição mais próxima do solo, introduzindo a prática de vários kata (que ia aprender com mestres de Okinawa no lugar de seu pai no período de difusão da arte no Japão) e criando as bases para o que seriam os treinamentos de Kumite. Infelizmente, no período após a Segunda Guerra Mundial, após contrair tuberculose, Gigo Funakoshi se recusou a se alimentar da ração distribuída pelos ocupantes americanos e, enfraquecido pela doença, faleceu deixando o pai só no trabalho de difundir seu Karate.

Gogen Yamaguchi (1909 - 1989)
Estudante de direito, iniciou seus treinamentos com Chojun Miyagi aos 22 anos, após uma experiência prévia em Karate e Kendo. Empenhou-se na difusão do Karate Goju e foi escolhido como sucessor de Miyagi no Japão. Fundou a Associação Internacional Karate Goju-Kai e foi uma das figuras mais importantes na liderança da formação da Japan Federation of All Karate-Do Organizations em 1964. Morreu em 1989, com o 10º Dan em Karate, e ainda figurando com mestre de Yoga e sacerdote Shinto (práticas que influenciaram o desenvolvimetno do Goju, como exemplificado nas técnicas de ibuki –respiração– características de seu estilo).

Shigeru Egami (1912 - 1981)
Egami sensei foi dos mais antigos e importantes alunos de Funakoshi sensei, liderando, inclusive, depois da década de 1940, o segmento que se opunha as deliberações da JKA. Foi através de seu trabalho ao lado de Gigo Funakoshi que o Shotokan incorporou os trabalhos de perna (sabaki) e estratégias (Go no sen e sen no sen) do Kendo e adaptou-os a realidade e técnicas do Karate-do, formando as bases para o modo de lutar que é usado até hoje. Através de seu contato com Morihei Ueshiba (o fundador do Aikido, com quem Funakoshi sensei cultivava amizade e costumava enviar alunos para ter lições), Egami sensei adotou um pensamento mais voltado para o desenvolvimento espiritual e filosófico através do Budô, o que o fez separar-se da JKA e fundar o Shotokai, que segue, inclusive na técnica, diversos princípios do Aikido. A Egami também é atribuída a criação da técnica Toate, forma peculiar de utilizar a força vital.

Masatoshi Nakayama (1913 - 1987)
Aluno de Gichin Funakoshi, liderou a JKA desde a saída de Saigo Kichinosuke até o ano de sua morte, em 1987. Foi responsável pela grande difusão do Karate como esporte, o foco principal de sua associação. Após o período da Segunda Guerra Mundial, foi figura importante no trabalho de padronização dos kata do Shotokan, que imortalizou em suas obras ‘Katas de Karate’ (em 5 volumes) e ‘O Melhor do Karate’ (em 11 volumes). Era figura conhecida nas competições e um dos primeiros instrutores a enviar discípulos para fora do Japão a fim de promover a expansão do Karate pelo mundo.

Masutatsu Oyama (1923 - 1994)
Oyama sensei, um coreano naturalizado japonês, foi o fundador do estilo Kyokushinkaikan. Após treinar com Gichin Funakoshi (com quem diz ter aprendido o verdadeiro sentido do Karate-Do), dedicou-se à prática do estilo Goju-ryu, sob a tutela de Gogen Yamaguchi (de onde cita ter tirado as raízes espirituais de sua arte).  Fundindo os princípios e kata destes estilos, além de incorporar interpretações próprias às técnicas, criou o Kyokushin. Ficou famoso internacionalmente pelas demonstrações onde matava touros com golpes de mãos nuas e suas diversas demonstrações de tameshiwari (quebramentos). Sua figura é até hoje inspiração para legiões de karate-ka e sua história um exemplo de superação e disciplina, como a de seus mestres e tantos outros karate-ka vindos de Okinawa ou nascidos no Japão na mesma época.

Hidetaka Nishiyama (1928 - 2008)
Nishiyama sensei é apontado como um dos mais habilidosos karate-ka de sua época, então aluno de Funakoshi e depois de Nakayama sensei. Em 1951 forma-se mestre em economia pela Universidade de Takushoku, época em que passa a ensinar nas forças armadas norte-americanas. Fundou também a All American Karate Federation e a International Traditional Karate Federation. Envolveu-se também no episódio que no fim da década de 1990 quase tirou do Karate a chance de tornar-se reconhecido pelo COI, devido a suas concepções adversas ao modelo de competição então estabelecido. Faleceu em 2008, deixando a ITKF e seu livro ‘The Art of Empty Hand’ como o livro de Karate mais vendido da história (com mais de 70 edições).

Hirokazu Kanazawa (1931 -)
Um dos mais famosos karate-ka do estilo Shotokan, foi atuante na difusão do Karate mundialmente. Além de ter sido modelo para as fotos dos livros de autoria de Masatoshi Nakayama, Kanazawa sensei sempre foi reconhecido por suas habilidades no Kumite e pela publicação de obras diversas que elucidavam em muitos suas técnicas diferenciadas. Criou ainda a organização ‘Shotokan Karate International’ (SKI) que atua até hoje difundindo suas teorias e ensinamentos.

Próximos Posts: Reigi!

OSU!!!

Tiago Frosi

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Karate-Do: O 'Estado Atual' e a faceta Olímpica  (História) escrito em sábado 20 junho 2009 15:37

OSU!

Bom pessoal, depois de um longo período sem postar nada, devido ao turbilhão de final de semestre aqui na UFRGS, retomamos o trabalho no Karate Science. Vamos falar hoje sobre os últimos anos de Karate pelo mundo e indicar algumas leituras interessantes sobre o Karate no Brasil, deixem seus comentários no final do tópico!

Na década de 1990 muitas mudanças tomaram o campo organizacional do Karate-Do como esporte, sendo que até 1996 haviam duas federações internacionais, a União Mundial das Organizações de Karate (W.U.K.O) e a Federação Internacional de Karate Tradicional (ITKF), com poder e representatividade equiparadas. Isto trazia problemas para que esta prática esportiva fosse reconhecida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) como esporte olímpico, o que repercutia também nos países no que diz respeito à difusão do Karate. Com a fusão da W.U.K.O. e da ITKF, surge em 1996 a Federação Mundial de Karate (WKF), favorecendo, então, o reconhecimento do Karate pelo COI, que aconteceria em 1999.

A partir desta influência do COI sobre o Karate, começaram a ocorrer diversas mudanças em suas regras, que foram tornando-o menos violento e possibilitando a diminuição do número de lesões (e da gravidade das mesmas) nas competições e treinamentos. Desta forma, o Karate no Brasil passou a se orientar por estas diretrizes e também modificou-se, como ocorreu nos demais países. Nesta perspectiva, o caráter desta prática relacionado inicialmente à defesa pessoal (arte marcial) sofreu uma ruptura através da mudança das regras de competição, buscando uma aproximação maior com o modelo de esporte olímpico.

Apesar destas mudanças, houve muita resistência e alguns elementos da prática tradicional do Karate permaneceram e foram fomentados em competições esportivas. No entanto, em janeiro de 2009, o Karate sofreu um golpe drástico em suas regras, pois certos elementos exigidos pelo COI foram implementados mesmo sob protesto dos defensores de uma prática mais tradicional.

O que vemos agora é um Karate de múltiplas faces, com organizações como a WUKO promovendo formas de competição mais semelhantes ao modelo antigo, a WKF com uma proposta que se aproxima do que é esperado pelo COI (principalemtne através do sensei Tom Morris, coordenador de arbitragem que vem trabalhando de forma inscansável para que o Karate se torne uma modalidade atraente ao grande público) e diversas organizações (tais como a Shotokai) que preferem não participar do 'mundo das competições', apoiados em razões históricas e de princípios totalmente reconhecíveis. Não podemos esquecer, também, da representação do karate-ka Lyoto Machida, o brasileiro que vem despertando o interesse de um segmento do público que vinha desacreditado do Karate: os espectadores e simpatizantes do vale-tudo.

O que não pode ser esquecido é que não há nada mais natural do que essa realidade que acabou resultando no Karate-Do dos dias atuais. O processo de construção da própria sociedade humana aponta para possibilidades de vermos os diversos fenômenos (dentre os quais as práticas esportivas ou atividades físicas não estão excluídas) de diferentes formas. Neste aspecto, ainda podemos ver que o Karate é tema de outros meios e mídias, como o cinema, a televisão, revistas em quadrinhos, desenhos animados, livros, contos, jogos digitais, caminhos de auto-conhecimento e desenvolvimento pessoal (ou espiritual) e até do esporte. Ao invés de nos preocuparmos em brigar por qual 'Karate é o certo' chegou a hora de entedermos e admirarmos esse fenômeno riquíssimo culturalmente e socialmente que é a nossa arte.

Para aqueles interessados na história local, indico ainda a leitura do capítulo sobre a História o Karate no Brasil (redigido pelo presidente Edgar Ferraz e colaboradores), que traz muita coisa sobre o período de introdução da arte no nosso país, dados que podem ser complementados pelo livro do Shihan Yoshihide Shinzato, publicado pela On-line e pela bela obra do sensei Paulo Roberto Bartolo Filho intitulada 'Karate-Do: História Geral e no Brasil', da editora Realejo.

Encerramos aqui esta breve incursão na históia do Karate, sendo que venho desenvolvendo um estudo para levantar dados sobre a históira local da arte, mais especificamente do RS. Assim que os dados estiverem compilados estudaremos a possibilidade de postar o estudo aqui no blog. Fica também o convite a todos para enviarem-me materiais sobre a História do Karate no Brasil ou em seus Estados (outros que não sejam o RS) afinal, estamos dispostos a trabalhar nessa empreitada também. Interessados podem enviar-me materiais ou pedir o roteiro de entrevistas pelo e-mail tiago.frosi@yahoo.com.br.

Semana que vem: 'A Etiqueta no Karate-Do'

OSU!!!

Tiago Frosi

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Karate – Do Japão para o Mundo  (História) escrito em terça 02 junho 2009 02:15

OSu!

Esta semana vamos comentar algumas coisas importantes sobre a difusão do Karate-Do no mundo, a partir da década de 1940. Aí se iniciaram diversos acontecimentos que de uma forma ou de outra diluíram uma certa unidade que existia entre os pioneiros de Okinawa. O que houve afinal? Porque muitos praticantes não se entendem até hoje? Vamos apontar algumas coisas e tentar chegar a um ponto de reflexão.

A partir da década de 1930, quando Gichin Funakoshi empreendeu diversas ‘reformas’ e conseguiu uma certa abertura e aceitação do Karate no Japão, diversos especialistas de Okinawa partiram ao Japão continental para ajudar na difusão da prática. Pelo seu trabalho incansável e grande disposição, Funakoshi conseguiu inclusive forjar amizades com pessoas como Jigoro Kano e Morihei Ueshiba (tendo este último inclusive recebido Shigeru Egami, um dos principais alunos de Funakoshi, para receber lições especiais). Neste período, as belas apresentações de Karate organizadas por Funakoshi sensei tinham a participação de figuras como Kenwa Mabuni e Chojun Miyagi.

É sabido de alguns movimentos desde a década de 1940 para que o Karate se voltasse para uma forma competitiva a exemplo do que ocorria com Kendo e Judo, o que era repudiado por Funakoshi e vários outros mestres da época. Mesmo assim alguns alunos de Funakoshi passaram a praticar o que chamaram Jiyu Kumite (Disputa livre) e há registro de alguns ‘duelos’ a partir daí. Em um destes encontros desagradáveis, Gigo Funakoshi, filho do ‘fundador’ do Shotokan, teria sido derrotado por um praticante de Goju-ryu, o que estimulou Masutatsu Oyama a ter lições com Gogen Yamaguchi. Antes disto, Hironori Otsuka já havia abandonado a escola de Funakoshi para dar sua própria interpretação a várias técnicas e unir com seus conhecimentos em Karate o que já sabia de Ju-Jutsu.

No final da década de 1950, quando  ocorre o falecimento do mestre Funakoshi, um triste fato ocorre, e que é deveras escondido da maioria dos praticantes do Karate-Do. Houve então uma disputa entre os dois segmentos de discípulos do mestre (que seguiam caminhos bastante diferentes desde a morte de Gigo, no pós-guerra). Os Karate-ka da ‘Shotokai’, liderados por mestre Egami defendiam que o enterro de Funakoshi sensei deveria ser realizado pela sua família, enquanto os membros da JKA, liderados por Masatoshi Nakayama, queriam que o enterro fosse realizado por esta associação em grande solenidade. Como a disputa acabou com a ‘vitória’ do lado de Egami, Nakayama e seus seguidores não compareceram ao enterro, o que causou revoltas e inimizades no mundo do Karate de então, principalmente dos seguidores de Egami.

Com todas as turbulências que ocorriam, porém, a difusão do Karate pelo mundo era inevitável. Diversos militares ocidentais, que participavam da ocupação do Japão desde a II Guerra Mundial, tiveram lições da arte das mãos vazias no período em que participaram das empreitadas bélicas e, ao regressar às suas terras, passavam a ensinar o que aprenderam. Para evitar que a arte fosse disseminada com aspectos técnicos e filosóficos adversos aos originais, vários mestres do Japão e de Okinawa passaram a se encaminhar para países da Europa e América (principalmente) para trabalhar no movimento de expansão do Karate. Em 1934, o próprio Chojun Miyagi foi ao Havaí promover a difusão do Goju-ryu (aproveitando a oportunidade em que sua família abria negócios na localidade), sendo um dos primeiros a sair do Japão para tal feito.

Diversos mestres da JKA rumaram para a Europa a fim de promover a difusão do Karate, entre estes, os principais foram: Sensei Kawasoe, Sensei Enoeda, Sensei Taiji Kase, Sensei Hiroshi Shirai, Sensei Tomita, Sensei Hidetaka Nishiyama e Sensei Hirokazu Kanazawa.

No período que sucedeu a Guerra Fria ocorreram grandes ‘evoluções’ na organização do Karate Mundial, havendo a fundação da Federação Européia de Karate (UEK) em 1965, seguida por outras Federações continentais, à própria WUKO e outras organizações que pretendiam liderar o Karate mundialmente, como a ITKF. Com a expansão das práticas e o ‘ganho do mercado’ sucedeu-se um imenso espírito de rivalidade entre escolas e estilos. Essa desavença, herdada desde aquela época ainda permanece em muitos locais e atravanca o desenvolvimento do Karate no Brasil e no mundo.

Assim, deixo a reflexão para a semana, queremos um Karate de rivalidades, como o instaurado desde a década de 1960, ou um Karate de amizade e sucesso, como o da década de 1930? Sempre me lembro que, no fim, todos se declaram buscadores de um tal ‘Caminho’ (Do)...

Semana que vêm: As disputas de uma década e o Karate no Brasil.

OSu!!!

Tiago Frosi

Referências:

AGUIAR, José. Karatê Shito-ryu: os grandes mestres, os katas, entrevistas. São Paulo: Geográfica Editora, 2008.

AUGUSTO, Jordan. Koryu e Gendai Budo: Reflexão. Portal da Sociedade Brasileira de Bugei. Disponível em: < http://www.bugei.com.br/ensaios/>. Acesso em: 15 mai. 2009,

CAMPS, Hermenegildo; CEREZO, Santiago. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

EGAMI, Shigeru. The Heart of Karate-Do. Tóquio: Kodansha Intenational, 2000.

FUNAKOSHI, Gichin. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

FUNAKOSHI, Gichin. Karatê-Do: Meu Modo de Vida. São Paulo: Cultrix, 2000.

GONELLA, Roberto. Do: Viaggio Attraverso il Karate alla Ricerca dell’antico To-De. S/L, 2003.

LOWE, Bobby. Mas Oyama’s Karate: Cómo se enseña em El Japón. Buenos Aires: Editorial Glem S.A., 1967.

NAKAYAMA, Masatoshi. O Melhor do Karatê: Visão Abrangente e Técnicas. São Paulo: Cultrix, 2000. V. 1, 11 v.

NAKAZATO, Jyoen; OSHIRO, Nobuko; MIYAGI, Tokomusa; TUHA, Kiyoshi; KOHAGURA, Yoshinobu; HIGAONNA, Morio; TAIRA, Yoshitaka; SAKUMOTO, Tsuguo. Karatê de Okinawa e Artes marciais com Armas. Disponível em: <www.wonder-okinawa.jp/023/eng>. Acesso em: 20 jun. 2005.

STEVENS, John. Três Mestres do Budô: Kano, Funakoshi, Ueshiba. São Paulo: Editora Cultrix, 2005.

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Uma Pequena Biografia de Grandes Mestres [parte 2]  (História) escrito em segunda 25 maio 2009 15:19

OSu!

Após falar rapidamente sobre os pioneiros do Karate-Do, apresentamos aqui uma pequena parte da história de grandes mestres que fizeram a história da nossa arte e foram figuras importantes no processo de difusão do Caminho das Mãos Vazias no Japão. Boa leitura!

Kenchu Nakaima (1856 - 1953)
Filho de Kenri Nakaima foi o difusor de estilo Ryuei-ryu, hoje grande destaque mundial em competições de kata pelos esforços de Tsuguo Sakumoto sensei. À família Nakaima são creditados a introdução dos kata Annan, Paiku, Pachu, Heiku entre outros.

Gichin Funakoshi (1868 - 1954)
Funakoshi sensei nasceu em 1868, em Shuri. Depois de uma infância débil e doentia, o jovem Gichin passou a gozar de boa saúde devido ao treinamento em Tode que recebia todas as noites de sensei Anko Azato.
Após recusar a aprovação em Medicina numa das principais Universidades japonesas por ser obrigado a abandonar o uso do birote (nó de cabelo em estilo samurai) e outros costumes tradicionais, Funakoshi que aprendera os clássicos chineses de seus avós (instrutores da família real) tornou-se professor em Okinawa. Foi o responsável pela primeira demonstração da arte de Okinawa no Japão continental, sendo seu principal difusor, fatos que lhe conferem o ‘título’ de Pai da Karate Moderno. Funakoshi sensei passou a maior parte de sua vida no Japão, abrindo clubes de Karate em Universidades e promovendo a arte sobre a qual escreveria vários livros (entre eles: Ryukyu Karate Kenpo, Rentan Goshin Karate Jutsu, Karate-Do Kyohan, Karate-Do Nyumon e Karate-Do: Meu Modo de Vida). Graças a sua interminável disposição e bom humor era chamado Tatsujin. Foi amigo pessoal de Jigoro Kano (fundador do Judo) e Morihei Ueshiba (fundador do Aikido), que incentivavam seus alunos a visitar os dojo um do outro para ter lições. Foi mestre de Shigeru Egami, Gigo Funakoshi, Hironori Ohtsuka, Masatoshi Nakayama entre outros. Criou os kata Taikyoku, Ten no Kata, Chi no Kata e Hito no Kata.

Chotoku Kyan (1870 - 1945)
Chotoku Kyan foi aluno de Sokon Matsumura e Anko Itosu. Kyan tornou-se famoso como introdutor dos famosos kata de Karate: Bassai (Passai) e Kusanku de Shorin-ji Ryu. Kyan é uma das maiores referências do Shuri-Te e precursor de eminentes mestres como Jyoen Nakazato, Ankichi Arakaki, Shoshin nagamine e Tatsuo Shimabuku.

Choki Motobu (1870 - 1944)
Motobu sensei nasceu em 5 de Abril de 1870 na vila de Akahira, em Shuri, Okinawa sendo o terceiro filho do governador  de Akahira, Chomo Motobu. Desde muito cedo Choki manifestou uma extraordinária aptidão física sendo apelidado de saru (macaco) pelos locais. Aos 12 anos começou a receber lições de Tode do seu irmão mais velho, Choyu. Também recebeu lições de Anko Itosu, e Kosaku Matsumora.
Choki Motobu publicou duas obras que lhe permitiram divulgar junto do grande público o seu conceito de Karate: Okinawa Kenpo Karate Jutsu, em 1926 e Watashi no Karate-jutsu (Minha Arte de Mãos Vazias), em 1932. Motobu foi Mestre de Shoshin Nagamine e de Yasuhiro Konishi, reconhecido pelo Dai Nihon Butokukai como um dos principais obreiros do Karate no Japão. No ano de sua morte, seu filho, Chosei, e seu principal aluno, Seikichi Uehara, fundaram o Motobu-ryu.

Choshin Chibana (1885 - 1969)
Chibana sensei foi um aluno top de Anko Itosu e fundador do estilo Shorin-ryu. Em 1933 registrou oficialmente o Shorin, Em seu programa estavam kata dentre os quais citamos Naifanchi (1 a 3), Pinan (1 a 5), Kusanku (dai) e Kusanku (sho), Passai (dai) e Passai (sho), Jion, Jitte, Sochin, Gojushiho, e Chinto.

Chojun Miyagi (1888 - 1953)
Chojun Miyagi iniciou seus treinamentos em Naha-Te com Kanryo Higaonna aos 14 anos. Após 15 anos passou um período de alguns anos na China, a pedido de seu mestre, para aperfeiçoar seu conhecimento como artista marcial. A Miyagi são atribuídos os processos de modernização do Karate-Do relativo aos estudos teóricos, tornando-o uma prática sistematizada e ligada às outras atividades atléticas, seguindo os preceitos da razão e da ciência. Em 1929 decidiu rebatizar seu estilo de Goju-ryu, retirando o nome de um dos princípios do Bubishi. É o introdutor dos kata Gekisaidai Ichi, Gekisaidai Ni, e Tensho.

Kenwa Mabuni (1889 - 1952)
Kenwa Mabuni nasceu em 14 de Novembro de 1889, na cidade de Shuri, capital da ilha de Okinawa na época. Passou a praticar o Shuri-te aos 13 anos com Anko Itosu, permanecendo sob sua tutela até o falecimento, aos 85 anos. Pouco antes da morte de Itosu, Mabuni sensei conheceu e tornou-se amigo de Chojun Miyagi, com quem passou a treinar Naha-te, incentivado pelo próprio Itosu. Através desta amizade, Mabuni pode treinar diretamente com mestre Higaonna. Em 1915 perdeu seus dois mestres, passando a ter lições com Seisho Aragaki.  Fundou o estilo Shito-ryu e incentivado por Jigoro Kano, mudou-se para o Japão, aos 40 anos, para trabalhar na difusão do Karate. O falecimento de Mabuni sensei foi anunciado nas rádios da época, e ao seu enterro, em Osaka, compareceram mais de três mil praticantes de Karate-Do.

Shoshin Nagamine (1907 - 1997)
Shoshin Nagamine, o fundador do Matsubayashi-ryu, foi aluno de proeminentes mestres, como Chotoku Kyan e Choki Motobu. Para honrar o mestre de Kyan, Sokon Matsumura e o de Motobu, Kosaku Matsumora, Nagamine incluiu o caractere ‘Matsu’ (pinheiro) no nome de seu estilo. Sua idéia era utilizar movimentos muito naturais para as técncias de seu estilo e os kata que incluiu em seu programa foram: Fukyugata I, Fukyugata II, Tomari Passai, Gojyusiho, Chatan Yara no Kusanku, Tomari Chinto, Rohai, Wankan e Wanshu.

Gráficos de linhagens dos mestres de Shuri-te, Naha-te, Tomari-te e Uechi ryu podem ser conferidos no site da prefeitura de Okinawa (http://www.wonder-okinawa.jp/023/eng/index.html).

OSu!

Tiago Frosi

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