Home Data de criação : 09/04/24 Última atualização : 09/09/11 06:16 / 17 Artigos publicados

Etiqueta

Simbologias Alegóricas no Reigi [UPDATED]  (Etiqueta) escrito em quinta 13 agosto 2009 06:10

OSU!

Bem pessoal, vamos encerrando hoje nossa série de posts sobre o reigi, a etiqueta do Karate-Do. Há alguns aspectos que não abordaremos por serem mais interessantes ao longo de outras análises, mas fecho hoje com uma abordagem de aspectos culturais sobre dois gestos usados no Karate, oriundos de contextos históricos não menos interessantes. Boa leitura!


Ritsu-rei

Certa vez um aluno me questionou: ‘Sensei, porque fazemos essa saudação estranha e simplesmente não damos a mão?’ Talvez a maioria dos professores fosse responder (como acabei fazendo): ‘Ah, isso é costume de japonês.’ Mas não é bem por aí, esse movimento característico surgiu no Japão apenas depois de 1200 d.C., com a solidificação de uma classe social chamada Buke. O Buke era formado pelos Bushi (os guerreiros).  Após diversos acontecimentos importantes (um processo que levou alguns séculos) esta classe guerreira tornou-se de longe a mais poderosa do país, tendo inclusive direitos assegurados pela lei como o de matar qualquer um que desrespeitasse um de seus membros. Até aí tudo bem, todos sabemos que os “samurai” (termo oriundo da expressão hira-zamourai que surgiu muito depois de Bushi e não era muito usado) controlavam o Japão, então você pode perguntar: ‘o que isso tem a ver com etiqueta?’ Tudo pequeno gafanhoto! Devido a esse poder ameaçador, garantido por lei, todas as pessoas de outras classes deviam prostrar-se perante um Bushi, fazendo exatamente o mesmo gesto que fazemos até hoje numa sessão de treinamento ou competição de arte marcial japonesa. A flexão de coluna à frente, acompanhada por um olhar de recolhimento, era a forma que os populares tinham de dizer ao guerreiro: ‘Confio-lhe minha vida, portanto se desejares decapita minha cabeça.’ E ai de quem não se prostrasse diante de um guerreiro que tinha conseguido uma lâmina nova e estava louco para testá-la...
Ritsu-rei é, portanto, uma alegoria que nos remete à repressão dos samurai (ou melhor, dos Bushi, membros do Buke) à população, em especial aos heimin (camponeses).


Jion, Ji'in, Jitte, Chinte

Uma importante simbologia dentro dos Kata Jion, Ji'in, Jitte e Chinte é oriunda de seu gesto técnico de abertura e finalização. Esse gesto, onde uma mão fechada é coberta pela outra mão, remete a um cumprimento chinês, que representava na antiguidade ‘respeito aos sábios e aos homens das artes marciais’, onde a mão cerrada simbolizava os guerreiros e a mão aberta, que a cobria, os sábios. Com a ascensão do Império Ming (1368 d.C. a 1644 d.C., período em que Okinawa era um Estado vassalo a esse Império), esse gesto mudou de significado. A partir de então, a mão curvada representava o dia e a mão cerrada representava a Lua, os símbolos usados no ideograma para Ming. A ascensão da dinastia Ming foi importante para a China, pois representou o fim da dinastia Yuan, através da qual os mongóis governavam o ‘país do meio’. Vale lembrar que foi exatamente no período desta dinastia que militares como Kung Sian Chun (Kushanku) estiveram em Okinawa nos Sapposhi, ensinando artes marciais. Entendemos, portanto, que esse gesto é mais uma alegoria que corrobora para percebermos a grande influência do Quan Fa chinês no desenvolvimento do Karate-Do, pois um gesto da etiqueta das artes marciais chinesas ainda está presente nos Kata de Karate, mesmo após um longo processo de ‘niponização’ da arte.


Referências (para a série de posts sobre reigi)

BÜLL, Wagner J. Aikidô - o Caminho da Sabedoria. São Paulo: DAG Gráfica e Editorial Ltda., 1988. 1ª edição.

CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.

CRAIG, D. M.. A Arte do Kendô e do Kenjitsu: a alma do Samurai. São Paulo: Madras, 2005.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.

FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Kyohan: The Master Text. Tóquio: Kodansha International, 1973.

GOULART, J. Portal Judô Fórum. Disponível em: <http://judoforum.com/blog/joseverson/>, acessado em 15 jul 2009.

JKF, Japan Karate-do Federation. Karate-Do Kata Kyohan Shitei Kata: Kata Model for Teaching. Tóquio: Japan Karate-do Federation, 2008.

LOWE, B. Mas Oyama’s Karate: Cómo se enseña em El Japón. Buenos Aires: Editorial Glem S.A., 1967.

NAKAYAMA, M. O Melhor do Karatê: Visão Abrangente - Práticas. São Paulo: Cultrix, 2000. V. 1, 11 v.

PARKER, E. Segredos do Karatê Chinês. Rio de Janeiro, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A., 1963.

RATTI, O.; WESTBROOK, A. Segredos dos Samurais: As Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.

REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.

SEBA, José A. Oliva. Artes Marciais: Curso Prático. Penha: Editora Século Futuro, 1986.

STEVENS, J. (Org.). Segredos do Budô. São Paulo: Editora Cultrix, 2001.



Próxima semana: “Nova Ciência: há um lugar para o Karate-Do?”

OSU!

Tiago Frosi

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Reigi - Seiza  (Etiqueta) escrito em sábado 01 agosto 2009 13:12

OSU!

Bom pessoal, seguimos falando dos procedimentos formais para etiqueta no Dojo, esta semana as saudações e exercícios na posição sentado, ou seiza. Boa leitura.

 

Sa-za-u-ki (forma correta de sentar e levantar)

No Karate, como em outras artes marciais japonesas, o modo correto de sentar e levantar são muito importantes, fazendo parte do ritual de início e término dos treinamentos. É um conhecimento que demonstra não apenas o respeito pelas tradições e pelos colegas, mas também o refinamento da etiqueta pessoal, junto de todos os outros cuidados já citados que vem sendo cultivado desde o período dos primeiros guerreiros do Japão.

Para sentar, o pé esquerdo é levado atrás, colocando-se primeiro o joelho esquerdo no chão. Depois disso o joelho direito repousa no solo, e se senta sobre os calcanhares, com as pontas dos dedos hálux se tocando.

Os homens devem sentar com os joelhos afastados, repousando as palmas das mãos sobre as coxas, com as pontas dos dedos para dentro.
As mulheres, por sua vez, posicionam os joelhos de forma que os mesmos se toquem e apontem para frente, repousando as mãos sobre os joelhos com as pontas dos dedos para frente.

Para levantar, o joelho direito é erguido antes e no movimento de levantar é que o joelho esquerdo é erguido e o pé alinhado com o direito. Deve-se passar da posição seiza (sentado), diretamente à posição de ritsu-rei (em musubi dachi) para realização das últimas reverências.

 

Cumprimento Inicial: sentado – Za-rei
(pronúncia: dzá-rê)

Para iniciar o ritual de saudação, após o alinhamento dos alunos, o professor comandará ‘Seiza’! (sentar-se).

1 – Kamiza – o local à fente do Shomen (onde fica o retrato do fundador ou outros adornos). É o lugar onde o professor (sensei) se coloca.
2 – Shimoza – o local onde os alunos com graduação kyu (mudansha) perfilam em ordem de faixas.
3 – Joseki – é o local onde os alunos yudansha (faixas pretas) ou alunos adiantados se sentam.
4 – Shimozeki – é a extremidade contrária ao Joseki, onde os alunos mais novos devem estar.

Da mesma forma que no cumprimento em pé (ritsu-rei), quando o za-rei é realizado, são pronunciados os mesmo comandos: Shomen-ni-rei (saudação ao fundador ou ao público), Sensei-ni-rei (saudação ao professor) e Otagai-ni-rei (saudação entre os colegas). A primeira flexão é feita em silêncio e as outras duas são seguidas da verbalização ‘OSU’!

Após a realização do ritual, o professor comanda ‘Kiritsu’! (levantar-se). Depois de todos os alunos porem-se em pé, é feita uma última vez uma saudação ritsu-rei.

 

Zazen e Mokuso

Mokuso é o comando para a prática de meditação/internalização no Karate. Geralmente realizado junto ao ritual de início e término da sessão de treinamento, é o momento onde se reflete sobre as ações antes do treinamento (o dia-a-dia) e dentro do treinamento (keiko). É um exercício deveras importante para acalmar o corpo e prepará-lo para iniciar uma nova prática. Numa prática mais ostensiva da meditação, o seu real objetivo pode ser alcançado, e este é o estado mental chamado Mushin (mente liberta).
A prática deve ser realizada de forma que busquemos esvaziar a mente de pensamentos, (mesmo que isso seja difícil, o objetivo maior leva a sucesso em tarefas não menos importantes) de imagens ou sons que circulem pela mente. No início deve-se colocar no ponto de vista do observador (como se fôssemos realmente um observador externo, como se assistíssemos a um programa de televisão),  percebendo a gama de pensamentos que viajam pela mente. Com o tempo, após reconhecer estes pensamentos devemos procurar 'deletar' aqueles que percebemos inadequados, mantendo apenas os que servem para a tarefa a ser realizada a seguir. Apesar de estarmos tratando de Karate-Do, e por isso mesmo no momento em que nos propomos a meditar no início dos treinamentos buscamos preservar apenas os pensamentos relativos aos exercícios que praticaremos, não é menos importante 'limpar' a mente de pensamentos inadequados em qualquer tarefa do dia que estivermos realizando. É esta falta de habilidade em nos concentrarmos e focalizarmos nossa atenção apenas no que é importante que diversas pessoas sofrem de 'transtornos e atenção' e vários outros 'males' da 'vida moderna'.

Além disso, o ibuki (respiração) adequado é necessário. Assim, emprega-se em geral uma regra para aprender o ritmo que depois torna-se natural. Neste ritmo, inspira-se pelas narinas por quatro segundos, segura-se o ar por um segundo e expira-se pela boca por mais quatro, mantendo-se mais um segundo ‘esvaziado’. Pessoas com mais prática chegam a ficar até 10 segundos (às vezes mais) realizando as fases de expiração/inspiração, devido a seu elevado poder de ventilação pulmonar.
Durante a prática, a atenção deve se voltar para o fluxo de energia no hara (abdômen), e a postura deve ser a mais harmônica possível.

 

Semana que vem: simbologias alegóricas no reigi [parte final]

OSU!

Tiago Frosi

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Reigi - Ritsu-rei, o início e o fim do treino [UPDATED]  (Etiqueta) escrito em quinta 23 julho 2009 01:19

OSU!

Iniciamos esta semana a série de posts que tratará do reigi, a etiqueta no Karate-Do. A demora pela publicação de novos posts aqui no Karate Science se deu devido aos compromissos do semestre e a demora para construir todo este material que irei postando semanalmente sobre a etiqueta. Espero que beneficie a todos, principalmente aos iniciantes que às vezes tem dificuldades de encontrar bons materiais sobre isto. Tentarei apresentar matériais mais gerais, evitando algumas especificidades de dos estilos. Fora esta limitação que temos, espero contribuir para a melhora na qualidade das atividades de todos, boa leitura!


Cumprimento Inicial: em pé – Ritsu-rei
(pronúncia: ritsu-ree)

Flexão de coluna à frente de 30º, mantendo a coluna ereta de forma harmônica, o movimento se á apenas na base da coluna. O olhar tranquilo não se mantém a frente, o que causaria movimento desarmônico na coluna cervical.
Após a saudação, ao receber o comando de preparação (Yoi!) o praticante se coloca em posição natural/ de alerta (Shizen Tai).


Saudações no Ritual de Cumprimento

1ª Saudação: ao fundador ou à assistência: Shomen-ni Rei
(em silêncio)

2ª Saudação: ao professor: Sensei-ni Rei
(Pronuncia-se o ‘OSu’)

3ª Saudação: aos colegas: Otagai-ni Rei
(Pronuncia-se o ‘OSu’)


Saudações ao finalizar um exercício

Toda vez que um exercício é encerrado, o instrutor profere dois comandos: Yame (parar) e Yasume (descansar)

Ao comando de parada os alunos retomam a posição de alerta natural (Shizen-Tai), e ao receber o comando para descansar, antes de relaxar, os alunos realizam o cumprimento em pé (ritsu-rei), para então poderem descansar. A saudação conota o agradecimento pelo conhecimento recebido do Sensei.


Saudação ao colega

Na prática dos exercícios de luta (kumite), ao posicionar-se frente à frente com um colega, deve-se realizar o ritsu-rei (saudação em pé) toda vez que for dado início ao exercício ou quando este acaba. O mesmo deve acontecer numa competição, onde os adversários se saúdam no início e no final de cada disputa.


Entrada e saída do Shiai-jo

O Shiai-jo (área de treinamento), o local do Dojo (academia ou salão de treinamento e desenvolvimento espiritual) onde são realizados os treinos das técnicas e onde estão instalados os tatames, deve ser tratado com o devido respeito. A entrada e saída do Shiai-jo deve ser feita com o ritsu-rei (cumprimento de pé) e de forma que, para entrar se pise primeiro com o pé direito nos tatames e para sair se pise primeiro com o pé esquerdo fora dos tatames. O caminhar fora dos tatames deve ser feito com o zori (chinelo), ou outro calçado que evite que sujeiras sejam trazidas ao Shiai-jo.


Alguns aspectos da competição

Saudação
A saudação em pé (ritsu-rei) é realizada no início das categorias, no início de cada disputa, ao término de cada disputa e ao término de cada categoria. Os árbitros sinalizam o momento apropriado para realização da saudação e esta ocorre também durante a abertura oficial.

Zanshin
O estado de alerta, concentração e foco de atenção (zanshin) deve ser demonstrado durante toda competição pelo karate-ka como sinal de sobriedade e comprometimento com o evento. Falta de zanshin acarretará derrota no kata e possivelmente desclassificação no kumite antes do fim da disputa. Esta atitude também deve ser perseguida em todos os treinamentos, onde o karate-ka realmente pode cultivá-la.


Semana que vem: Seiza!

OSU!!!

Tiago Frosi

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