OSU!
Bem pessoal, vamos encerrando hoje nossa série de posts sobre o
reigi, a etiqueta do Karate-Do. Há alguns aspectos que não
abordaremos por serem mais interessantes ao longo de outras
análises, mas fecho hoje com uma abordagem de aspectos culturais
sobre dois gestos usados no Karate, oriundos de contextos
históricos não menos interessantes. Boa leitura!
Ritsu-rei
Certa vez um aluno me questionou: ‘Sensei, porque
fazemos essa saudação estranha e simplesmente não damos a
mão?’ Talvez a maioria dos professores fosse responder (como
acabei fazendo): ‘Ah, isso é costume de japonês.’ Mas
não é bem por aí, esse movimento característico surgiu no Japão
apenas depois de 1200 d.C., com a solidificação de uma classe
social chamada Buke. O Buke era formado pelos
Bushi (os guerreiros). Após diversos acontecimentos
importantes (um processo que levou alguns séculos) esta classe
guerreira tornou-se de longe a mais poderosa do país, tendo
inclusive direitos assegurados pela lei como o de matar qualquer um
que desrespeitasse um de seus membros. Até aí tudo bem, todos
sabemos que os “samurai” (termo oriundo da
expressão hira-zamourai que surgiu muito depois de
Bushi e não era muito usado) controlavam o Japão, então
você pode perguntar: ‘o que isso tem a ver com
etiqueta?’ Tudo pequeno gafanhoto! Devido a esse poder
ameaçador, garantido por lei, todas as pessoas de outras classes
deviam prostrar-se perante um Bushi, fazendo exatamente o
mesmo gesto que fazemos até hoje numa sessão de treinamento ou
competição de arte marcial japonesa. A flexão de coluna à frente,
acompanhada por um olhar de recolhimento, era a forma que os
populares tinham de dizer ao guerreiro: ‘Confio-lhe minha
vida, portanto se desejares decapita minha cabeça.’ E ai de
quem não se prostrasse diante de um guerreiro que tinha conseguido
uma lâmina nova e estava louco para testá-la...
Ritsu-rei é, portanto, uma alegoria que nos remete à
repressão dos samurai (ou melhor, dos Bushi,
membros do Buke) à população, em especial aos
heimin (camponeses).
Jion, Ji'in, Jitte, Chinte
Uma importante simbologia dentro dos Kata Jion, Ji'in,
Jitte e Chinte é oriunda de seu gesto técnico de abertura e
finalização. Esse gesto, onde uma mão fechada é coberta pela outra
mão, remete a um cumprimento chinês, que representava na
antiguidade ‘respeito aos sábios e aos homens das artes
marciais’, onde a mão cerrada simbolizava os guerreiros e a
mão aberta, que a cobria, os sábios. Com a ascensão do Império Ming
(1368 d.C. a 1644 d.C., período em que Okinawa era um Estado
vassalo a esse Império), esse gesto mudou de significado. A partir
de então, a mão curvada representava o dia e a mão cerrada
representava a Lua, os símbolos usados no ideograma para Ming. A
ascensão da dinastia Ming foi importante para a China, pois
representou o fim da dinastia Yuan, através da qual os mongóis
governavam o ‘país do meio’. Vale lembrar que foi
exatamente no período desta dinastia que militares como Kung Sian
Chun (Kushanku) estiveram em Okinawa nos
Sapposhi, ensinando artes marciais. Entendemos, portanto,
que esse gesto é mais uma alegoria que corrobora para percebermos a
grande influência do Quan Fa chinês no desenvolvimento do
Karate-Do, pois um gesto da etiqueta das artes marciais
chinesas ainda está presente nos Kata de Karate, mesmo
após um longo processo de ‘niponização’ da arte.
Referências (para a série de posts sobre
reigi)
BÜLL, Wagner J. Aikidô - o Caminho da Sabedoria.
São Paulo: DAG Gráfica e Editorial Ltda., 1988. 1ª edição.
CAMPS, H.; CEREZO, S. Estudio técnico comparado de los
Katas de Karate. Barcelona: Editorial Alas, 2005.
CRAIG, D. M.. A Arte do Kendô e do Kenjitsu: a
alma do Samurai. São Paulo: Madras, 2005.
FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Nyumon: Texto Introdutório
do Mestre. São Paulo: Cultrix, 1999.
FUNAKOSHI, G. Karatê-Do Kyohan: The Master Text.
Tóquio: Kodansha International, 1973.
GOULART, J. Portal Judô Fórum. Disponível em:
<http://judoforum.com/blog/joseverson/>, acessado em 15 jul
2009.
JKF, Japan Karate-do Federation. Karate-Do Kata Kyohan
Shitei Kata: Kata Model for Teaching. Tóquio: Japan
Karate-do Federation, 2008.
LOWE, B. Mas Oyama’s Karate: Cómo se enseña
em El Japón. Buenos Aires: Editorial Glem S.A., 1967.
NAKAYAMA, M. O Melhor do Karatê: Visão Abrangente
- Práticas. São Paulo: Cultrix, 2000. V. 1, 11 v.
PARKER, E. Segredos do Karatê Chinês. Rio de
Janeiro, Distribuidora Record de Serviços de Imprensa S.A.,
1963.
RATTI, O.; WESTBROOK, A. Segredos dos Samurais: As
Artes Marciais do Japão Feudal. São Paulo: Madras, 2006.
REID, H.; CROUCHER, M. O caminho do guerreiro: o
paradoxo das artes marciais. São Paulo: Cultrix, 2004.
SEBA, José A. Oliva. Artes Marciais: Curso
Prático. Penha: Editora Século Futuro, 1986.
STEVENS, J. (Org.). Segredos do Budô. São Paulo:
Editora Cultrix, 2001.
Próxima semana: “Nova Ciência: há um lugar para o
Karate-Do?”
OSU!
Tiago Frosi
Comentários